O que são âncoras de carreira
A pergunta que ninguém faz na entrevista
Toda entrevista pergunta o que você quer. Onde se vê em cinco anos, o que busca numa oportunidade, quais são os seus objetivos. São perguntas fáceis de responder e péssimas de acreditar, porque a resposta que sai é a que a pessoa aprendeu a dar.
A pergunta que decide de verdade é outra, e ela quase nunca é feita: do que você não abre mão? Não o que você quer a mais. O que você não troca. A condição que, se for retirada, faz o resto perder a graça, mesmo que o resto esteja todo lá.
Essa condição tem um nome na literatura de carreira. Ela se chama âncora.
De onde vem a ideia
O conceito é de Edgar Schein, psicólogo organizacional do MIT. Nos anos 1970 ele acompanhou um grupo de ex-alunos ao longo de mais de uma década, não com questionário de preferência, mas olhando o que eles de fato fizeram: que propostas aceitaram, quais recusaram, onde ficaram, de onde saíram e o que diziam quando explicavam a escolha.
O que apareceu foi um padrão que ninguém tinha declarado no começo. Cada pessoa voltava, escolha após escolha, a proteger uma mesma coisa. Não a mesma empresa, nem a mesma função, nem o mesmo salário: a mesma condição. Alguns protegiam o domínio técnico. Outros, o controle sobre o próprio método. Outros, a segurança. E quando uma oportunidade ameaçava aquela condição, a pessoa recusava, mesmo quando a oportunidade era objetivamente melhor.
Schein chamou isso de âncora de carreira, e a palavra é bem escolhida. Uma âncora não escolhe o destino do barco. Ela define até onde ele consegue se afastar antes de a corrente esticar. Você pode navegar em muitas direções, aceitar muitos trabalhos, viver muitas fases — e ainda assim existe um ponto de onde você não se solta sem sentir.
O que uma âncora é, e o que ela não é
Vale ser exato aqui, porque o conceito é fácil de confundir com três outras coisas.
Âncora não é personalidade. Personalidade descreve como você se comporta: se é rápido ou cauteloso, se fala muito ou pouco, como reage sob pressão. Âncora não descreve comportamento, descreve preço. Duas pessoas de temperamentos opostos podem ter a mesma âncora, e vão protegê-la de jeitos completamente diferentes.
Âncora não é vocação. Vocação responde "o que eu deveria fazer". Âncora responde "o que precisa estar presente, faça eu o que fizer". A mesma âncora cabe em dezenas de profissões, e a mesma profissão acomoda pessoas com âncoras diferentes — que serão felizes ali por motivos diferentes e sairão de lá por motivos diferentes.
Âncora não é o que você gosta. Você gosta de várias coisas. Gostar é barato, porque não custa nada querer tudo ao mesmo tempo. A âncora só aparece quando gostar não basta: quando duas coisas boas estão na mesa e você só pode ficar com uma.
É por isso que ela é difícil de descobrir sozinho, no conforto. Uma âncora só se revela sob escolha forçada. Perguntar "o que é importante para você no trabalho?" produz uma lista de seis itens, todos verdadeiros e nenhum útil. Colocar dois deles frente a frente, obrigar a escolha, e repetir isso muitas vezes — aí sim aparece a hierarquia que a pessoa carrega e nunca precisou enunciar.
Descubra se essa é a sua.
Ler sobre uma âncora dá a suspeita: você se reconhece em duas cenas e pensa "é isso". Só que a vizinha dela costuma ter cenas parecidas, e a diferença entre as duas é o que muda a decisão. O Teste de Âncoras de Carreira faz a pergunta que a leitura não faz, em 28 escolhas, 5 minutos, sem cadastro. No fim, você sabe qual é a sua, e o que vem logo atrás.
Descobrir se é a minhaComo a âncora age no dia a dia
Na maior parte do tempo, ela não age. Enquanto está sendo respeitada, você nem sabe que ela existe: o trabalho tem problemas normais, você reclama de coisas normais, e a vida segue.
Ela aparece em três situações, e sempre do mesmo jeito.
Quando alguém te oferece algo melhor. Uma promoção, um salário maior, um convite. E, em vez do entusiasmo que a situação pedia, vem um desconforto que você não consegue justificar. Você diz que vai pensar. Pensa, e o desconforto não passa. O que está acontecendo é que a oferta, junto com tudo o que ela traz de bom, retira alguma coisa — e essa coisa é a sua âncora.
Quando o trabalho muda por baixo de você. Você não mudou de emprego, mas o emprego mudou. Entrou um processo novo, a empresa cresceu, o produto virou outro, o chefe trocou. Do lado de fora nada de grave aconteceu. Do lado de dentro, uma condição foi retirada, e o que era tolerável virou insuportável de um jeito que você não sabe explicar para quem pergunta.
Quando você precisa explicar uma escolha esquisita. Recusou o que todo mundo aceitaria, ou ficou onde todo mundo saiu. A explicação que você deu foi outra, mais apresentável — medo, momento ruim, questão pessoal. A verdadeira era a âncora, e ela costuma soar pequena em voz alta, embora tenha sido a coisa mais séria da decisão.
Repare no que há em comum: nos três casos, a âncora se manifesta como incômodo antes de virar palavra. Primeiro o corpo sabe; a frase vem depois, se vier. Esse atraso entre sentir e nomear é o que faz tanta gente mudar de emprego e reencontrar o mesmo problema do outro lado.
Uma, às vezes duas
A maioria das pessoas tem uma âncora dominante. Algumas têm duas de peso parecido, e aí a vida profissional costuma ser mais tensa, porque as duas cobram em direções diferentes e alguma hora se chocam.
Quando existe uma segunda forte, ela raramente concorre com a primeira: ela modula a primeira. Não muda o caminho, muda as condições em que o caminho é aceitável. Alguém que precisa construir algo próprio e tem segurança em segundo lugar não deixa de empreender — empreende com reserva, com prazo e com plano B. A segunda âncora não escolhe a rota; ela dita o jeito de percorrer.
As outras seis não desaparecem. Elas continuam existindo como preferências, e você vai reconhecê-las quando ler sobre elas. A diferença é que, quando a escolha aperta, você entrega qualquer uma das seis para proteger a primeira. É exatamente isso que faz dela uma âncora, e não um gosto.
As oito
Schein descreveu oito. Os nomes técnicos dele são os que aparecem na literatura acadêmica; do lado de cá usamos nomes mais diretos, porque a pessoa que está decidindo a própria carreira não precisa de vocabulário de artigo.
Cada uma tem uma página própria, com as cenas em que ela aparece, o que costuma feri-la e com qual das outras ela é confundida — porque as vizinhas geram cenas parecidas, e a diferença entre duas âncoras vizinhas é justamente o que muda uma decisão.
E depois que você souber?
Saber a sua âncora não resolve nada sozinho. Ela não diz em que empresa trabalhar, não indica profissão e não decide se você deve sair ou ficar.
O que ela faz é mais modesto e mais útil: transforma um incômodo sem nome em uma frase. E uma frase pode ser testada. Você consegue olhar para a vaga e perguntar se aquilo é respeitado por padrão ou por favor. Consegue negociar a coisa certa com quem está, em vez de pedir aumento quando o problema era controle. Consegue perceber que a promoção que todo mundo acha ótima vai te custar exatamente aquilo que você não pode pagar.
E consegue, principalmente, parar de trocar de cenário achando que está resolvendo o problema. Quem muda sem saber o que estava sendo ferido costuma reencontrar o mesmo aperto no lugar seguinte, com outro nome na porta e o mesmo domingo à noite.
Se o que te trouxe aqui foi a vontade de mudar de carreira, e não a curiosidade sobre o conceito, o caminho começa um passo antes: entender o que te fez querer sair.
As oito âncoras
- Competência técnica em Schein: Competência técnica/funcional
- Liderança em Schein: Competência gerencial
- Autonomia em Schein: Autonomia/independência
- Estabilidade em Schein: Segurança/estabilidade
- Empreender em Schein: Criatividade empreendedora
- Propósito em Schein: Serviço/dedicação a uma causa
- Desafio em Schein: Desafio puro
- Equilíbrio em Schein: Estilo de vida
Descubra se essa é a sua.
Ler sobre uma âncora dá a suspeita: você se reconhece em duas cenas e pensa "é isso". Só que a vizinha dela costuma ter cenas parecidas, e a diferença entre as duas é o que muda a decisão. O Teste de Âncoras de Carreira faz a pergunta que a leitura não faz, em 28 escolhas, 5 minutos, sem cadastro. No fim, você sabe qual é a sua, e o que vem logo atrás.
Descobrir se é a minha